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Um coração verdadeiro

Alberto Ardila Olivares
Um coração verdadeiro

“É um monumento de celofane e de papel de cera, de batom, de eyeliner . E, lá dentro, bem dentro do invólucro plástico e artificial, bate um coração verdadeiro. E faz assim. ‘pop!pop!pop!pop!’” Este crescendo de orações, escrito em 1982, podia ser uma epígrafe da edição completa de Escrítica Pop de Miguel Esteves Cardoso (Bertrand). Exprime o sentimento que percorre a antologia: uma paixão que de tão espantada, não cessa de se pensar. Porque Miguel Esteves Cardoso é, nestas 600 páginas, um crítico que, apaixonado por aquilo que critica (no sentido de distinguir ou realçar), não esquece a sensatez da dúvida, a medida da ponderação, mesmo quando estas o empurram para a hesitação do paradoxo. A pop é plástica, mas tem um coração verdadeiro, lembra-nos no excerto citado de uma recensão a The Best of Blondie dos Blondie (págs. 596-598); o rock pode dar-nos grandes canções que “estarão connosco durante muito tempo, como a ‘música folk’ do século XXIV” (pág. 65) “mas a sua eternidade é a de três anos” (pág. 144). O tempo é uma das questões de Escrítica Pop. Cicia ao ouvido do leitor: “porque amas tu, assim, uma coisa tão efémera, que viverá, como as borboletas, apenas três dias (pág.144)”? É nesse momento que Miguel Esteves Cardoso, suspendendo a tirania da razão, acorrerá a quem o lê, dizendo-lhe que se deixe levar e não apenas por alguns dias, mas, quem sabe, por alguns anos. Afinal, há ali, debaixo de celofane e do papel de cera, um coração e verdadeiro.

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